![]() |
| Velha moça. |
Levantei, e ninguém na casa ouviu meus passos, tomei meu café, ovos, torradas e, um pouco de solidão.
Voltei ao quarto e notei que minhas janelas estavam fechadas e que havia um lindo sol lá fora. Então, as abri.
Comecei a notar quanto barulho das árvores e dos ventos que as açoitavam, debrucei-me diante das flores da janela, esbarrei em um jarro, ele caiu, se partiu. Não ouvi nenhum grito de reprovação. Logo, fui correndo apanhar os cacos do vaso. A flor ainda estava viva; como se lutasse pra sobreviver.
Não consegui ver a pobre murchar, sabendo que tenho hábeis mãos que podem cavar um novo lar para tal. Assim o fiz.
Pela tarde, notei que o almoço já estava pronto, e que as panelas cheias e meu estômago vazio necessitavam de um equilíbrio mútuo. Apressada fui satisfazer uma necessidade básica humana. Quando terminei, fui lavar o prato, enquanto lavava, num repente o deixei cair- hoje era o dia dos desastres- Apanhei novamente os pedaços do chão.
Oras já estava assustado, com toda aquela quietude, os únicos barulhos ouvidos naquele dia eram dos desastres de uma pessoa desastrada.
Desastrado, eu? Não me achava tão desastrado, assim. Era apenas um dia ruim.
Resolvi pela tarde olhar um álbum de família, e lá haviam várias fotos extinguíssemas. Naquele momento lembrara de minhas viagens e minha época de glória, lembrei como era lindo, vestir aqueles longos vestidos, lembrei de quando tudo cheirava a lírio do campo e a forma carinhosa do sol se por nas tardes alegres de minha juventude.
Enquanto olhava nas fotos meus longos cabelos, lembrava do primeiro beijo, oh nao sabia tocar os lábios de um garoto, eu tinha medo de morder demais, de beijar de menos e por a lingua para fora, que loucura, não tinha tanta coragem, tinha asco. Lembrei da minha noite de núpcias e de como eu estava assustada com medo, ele me tocava e eu segurava o lençol como se uma onça faminta estivesse sentido o cheiro de carne fresca, como se quisesse me tragar.
Nunca tive tanto medo do toque de quem amava, mas realmente, na horizontal daquela cama, conheci alguém que nao conhecia, um faminto, que podia me ver no escuro e usar de mim, como um objeto só seu. Na realidade eu me sentia como se nunca tivera sido tocada realmente, pois as mãos que me tocavam eram de um desconhecido, eu o amava, como amava, mas amava o que não me tocava como objeto, fisicamente, como peça de um arsenal de desejos libidinosos.
A dor do meu estupro consciente foi passando, comecei a conhecer meu marido, meu amante, meu lobo lobo adestrado.
Ao continuar folhear as fotos, notei que havia uma da Índia, então, percebi, eu estava sorrindo naquela, era tão raro sorrisos em minha face. Comecei a reviver aquele dia em Mumbai , enquanto passeava pela cidade presenciei a um tipo de enterro indiano. Era jovem, com poucos anos de casada, meu esposo a negócios e eu curiosa. Lembrei de enterros do ocidente, comecei a notar como éramos tão formais, comparei e, analisei.
Oh como aquilo me ajudou no que sou hoje, assistia àquelas mulheres chorando em cima do corpo, elas se retorciam de tanta dor, nunca vira um acúmulo tão grande de dor, enquanto aqui no ocidente, oferecem- quer um lencinho?! -Oras, vão todos para o inferno, deixem-me chorar- tenho certeza que essa seria a resposta daquelas mulheres do velório hindu. Queria ter sentido aquela dor um dia, acho que um dia senti, é que sou uma dama, e damas não choram como histéricas. Senhoras se calam, e usam o 'lencinho'.-queria ter mandado tudo para o inferno, inclusive a caixinha de lenços- eu quis, mas não significa que mandei.
Cansei das lágrimas não derramadas, então, parei de ver o álbum.
Ao passar de algumas horas fechei as janelas, ou melhor, às bati, para que não entrassem insetos em casa.Nunca a cor do teto foi tão branca. Então resolvi tomar um banho, e no banho me lembrei das cachoeiras de minha infância. Senti-me como uma criança dentro daquele banheiro, eu pulava na água, era como se ela retribuísse minha brincadeira e jorrava em mim.- Maldita modernidade, ilusória não?
Enfim, ora de deitar, numa cama vazia.
-Sinto sua falta, falta dos seu gritos comigo, dos seus disparastes. Até mesmo da forma carinhosa de roncar ao meu lado.
-Não leve a mal, mas hoje deitei só e senti falta da mão que me tocava, que arrepiava, podia ser de medo a princípio, mas um dia fora de desejo. O lobo foi domado, com um único alento que machucava e curava ao mesmo tempo.
Toquei teu lugar na cama, como quem necessita tocar em algo, só senti o ar.
-Eu hoje me senti só. Quando acordei, queria um beijo com sabor de saliva, mas era o meu beijo.
-No momento em que quebrei o vaso de flores, queria seu olhar de reprovação -olhava para os lados e não encontrava.
-Ah como tenho saudades daquele olhar, que me fulminava.
-Queria ser assustada novamente, ter medo, queria ter um pouco mais de vida ao teu lado.
-Queria ter chorado mais, afinal nem todas lágrimas são de dor.
'Oh meu velho'.
Queria que o mundo me olhasse com teus olhos, e me compreendesse com tua paciência. Embora assustava-me com teus surtos, só eu sabia penetrar teu coração, com doçura tal, para que tu entendesse que seu olhar me cativa até zangado.
Nunca ninguém vai me olhar com teus olhos, sejam de ternura ou raiva. É que nem sempre o amor trata com de forma afável, temos que ser amados até na loucura. Mais que amados temos que ser notados.
Hoje acordei meio invisível.
Já não tinha teu olhar.
Não era mais visível.
Conto |Vinícius|



0 comentários:
Postar um comentário